Mistério desfeito: RelationChip era campanha falsa da APAV contra a violência no namoro

A APAV lançou uma campanha de sensibilização que rapidamente captou a atenção pública e gerou polémica nas redes sociais. O chamado “RelationChip”, apresentado como um dispositivo tecnológico inovador capaz de permitir o acesso permanente à localização, palavras-passe e contactos do parceiro, nunca existiu. Tratou-se, na verdade, de uma ação criada pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima para alertar para comportamentos de controlo no namoro que continuam a ser socialmente normalizados, sobretudo entre os mais jovens.

A iniciativa surgiu sob a forma de uma página promocional que anunciava o alegado implante subcutâneo, descrito como uma solução de “transparência total” entre casais. Em poucos dias, o tema tornou-se viral e originou um intenso debate público, com muitos utilizadores a manifestarem indignação perante a ideia de vigilância permanente numa relação amorosa e a questionarem a legalidade e a ética de um controlo tão intrusivo.

Nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, a APAV confirmou oficialmente que o produto era fictício. A campanha foi propositadamente lançada na semana que antecede o Dia dos Namorados, com o objetivo de chamar a atenção para práticas de controlo que, embora comuns, configuram formas de violência emocional e psicológica.

Segundo a associação, comportamentos como vigiar a localização do parceiro, exigir acesso a palavras-passe, controlar amizades ou monitorizar contactos são frequentemente encarados como sinais de cuidado ou preocupação, quando na realidade representam mecanismos de controlo e dominação. Na mensagem divulgada, a APAV é clara: “Ver a localização, pedir passwords ou controlar amizades não é amor. É violência. Muda o Chip”.

João Lázaro, presidente da APAV, sublinha que aquilo que parece absurdo quando apresentado sob a forma de um chip tecnológico é, afinal, uma realidade quotidiana em muitas relações: práticas de vigilância e controlo que são normalizadas e raramente reconhecidas como violência.

Os dados da associação reforçam a gravidade do problema. Nos últimos quatro anos, foram acompanhadas 3.968 vítimas de violência em contexto de namoro ou após o fim da relação, sendo que cerca de 30% dos casos envolvem jovens até aos 25 anos. Entre os tipos de violência identificados estão o controlo excessivo, a violência psicológica, a perseguição e a violência sexual.

A APAV recorda que a Linha de Apoio à Vítima continua disponível através do número 116 006, nos dias úteis, entre as 8h e as 23h, prestando apoio, informação e encaminhamento a todas as pessoas que se encontrem em situação de violência.

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